Quinta-feira de Memórias – Fernando Pessoa

In Entreternimento, Muito Interessante by Raquel PLeave a Comment

Gostava de celebrar as Memórias à Quinta começando uma série de entradas sobre portugueses não apenas famosos mas que trouxeram riqueza à nossa História e, nalguns casos, ao mundo. Mais ou menos controversos, mais ou menos únicos, homens ou mulheres, todos eles ficaram para a História, nos campos da literatura, música, desporto ou até mesmo altruísmo.

Como pertenço ao campo das letras e ler (e escrever!) é dos meus passatempos preferidos, gostava de começar com um dos mais famosos e icónicos poetas de todos os tempos.

Fernando Pessoa
Fernando Pessoa

Imagem: cortesia de https://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Pessoa

O mais universal poeta português quase dispensa apresentação. Confesso que o meu primeiro contacto com ele – na tenra idade de 16 anos – não foi o melhor. Atribuo o atrito à minha falta de maturidade para, na altura, compreender e absorver a sua poesia, especialmente a obra de Fernando Pessoa Ortónimo. Já os heterónimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos e a épica A Mensagem, trouxeram-me uma experiência poética mais positiva.

O facto de existirem tantos poetas dentro do mesmo poeta é o que torna Pessoa único. Tal como o poeta americano Robert Hass afirma: “Pessoa inventava poetas inteiros.”, sendo que cada um constituía uma faceta da personalidade do poeta. É esta a faceta mais estudada da sua obra.

Pessoa foi fortemente influenciado pelo Ocultismo e Misticismo e acredita-se que estaria ligado à Maçonaria, apesar de não se lhe conhecer qualquer filiação. Para além da poesia e da escrita, realizava também consultas astrológicas. A nível de literatura, foi também fortemente influenciado por William Shakespeare, Edgar Allan Poe, John Keats, Lord Byron e Percy Shelley, entre outros. Foi pessoa quem traduziu para português dois dos principais poemas de Poe: Annabel Lee e O Corvo.

Por ter passado vários anos em Durban, na África do Sul, Fernando Pessoa aperfeiçoou o idioma inglês, sendo que os seus primeiros poemas foram escritos nessa língua. Igualmente se ocupou de traduzir textos quer de inglês para português como de português para inglês, inspirado em divulgar o português. Como afirmou, através do seu heterónimo Bernardo Soares: “A minha pátria é a língua portuguesa.

Os Heterónimos
Heterónimos de Fernando Pessoa

Os heterónimos de Fernando Pessoa na fachada principal da Faculdade de Letras de Lisboa. Esquerda para a direita: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Imagem: cortesia de SlidePlayer.com.br

Ricardo Reis – médico que simboliza a herança clássica da literatura ocidental. A sua obra revela simetria, harmonia e bucolismo e revela elementos estóicos e da mitologia pagã. A sua obra muitas vezes aborda o fim inevitável de toda a existência.

Alberto Caeiro – fortemento influenciado por elementos campestres e rurais, pois terá vivido toda a sua vida no campo. Apesar de não ter estudos formais – apenas concluíu os estudos primários – Caeiro é considerado o mestre dos três heterónimos.

Álvaro de Campos – o mais livre e mais revoltado e “ácido” dos heterónimos. Desiludido com a vida e estrangeiro em qualquer parte do mundo, assume o seu niilismo existencial com Tabacaria, um dos mais conhecidos e importantes poemas da língua portuguesa. Crê-se que Álvaro de Campos era o alter-ego de Pessoa.

Bernardo Soares – é considerado semi-heterónimo, pois, como o seu própriuo criador explica: “Não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e afectividade.” Foi o autor de Livro do Desassossego.

Alexander Search – o único heterónimo em língua inglesa. Criado quando Pessoa ainda estudava em Durban. Através de Search, o poeta enviava cartas a si mesmo.

Autopsicografia

Excerto de Autopsicografia – Fernando Pessoa Ortónimo

Fernando Pessoa faleceu a 30 de Novembro de 1935, um dia após lhe ter sido diagnosticada cólite hepática associada a cirrose hepática. Facto não surpreendente visto o poeta ter consumido álcool excessivamente durante a vida. No dia anterior à sua morte, houvera escrito sobre si mesmo, a seguinte frase: “I know now what tomorrow will bring.” (Não sei o que o amanhã trará). O seu funeral realizou-se no Cemitério dos Prazeres em Lisboa, tendo sido transladado para o Mosteiro dos Jerónimos em 1988, como sinal do reconhecimento que em vida não obteve.

Curiosidade:

Fã do ocultismo, Pessoa tinha imensa curiosidade no ocultista e poeta inglês Aleister Crowley. Uma vez, ao ler uma sua publicação, detetou erros no horóscopo e escreveu ao britânico para o corrigir. Os seus conhecimentos de astrologia impressionaram Crowley de tal forma que este se deslocou mais tarde a Portugal para conhecer o poeta. O encontro não decorreu sem sensacionalismo, pois o ocultista inglês simulou o seu suicídio na Boca do Inferno, o que atraíu não só as diversas polícias europeias, como os meios de comunicação. Pessoa terá estado por detrás da encenação, pois terá notificado os jornais do sucedido. O objetivo era a escrita de um romance policial cujos direitos reverteriam a favor dos dois poetas. Apesar de terem escrito algumas páginas, a obra nunca chegou a ser concluída.

Aleister Crowley

Alesiter Crowley – Imagem: cortesia de factmag.com

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